Fim de ano é tudo igual. Natal na mãe, plantão, falta de tempo, tudo cheio, trânsito e desespero para sair de folga.
Este ano, miraculosamente e com uma mãozinha da indústria farmacêutica, tudo caminhava muito bem no reino lá de casa.
João viajou antes. Eu fiquei para o plantão. Na hora de sair de casa, o pânico. E o Beto?
Beto é nosso Beta. Por ser azul e não vermelho, é menino. Apesar de testes do espelho terem dito o contrário, desde o dia em que chegou em casa como lembrancinha de um aniversário, Beta recebeu o nome de Beto.
João se apegou ao bichinho. A lembrancinha vinha com descrições detalhadas de como deveríamos mantê-lo vivo. Bicho de águas sujas, o Beta estava acostumado à vida dura. Não precisa de muito espaço, aliás seu cafofo tem 15 cm². É selvagem. Vive sozinho. Um hermitão das águas, que sabe se virar nos dias de lama.
Fiquei olhando pro Beto e maquinando como poderia levá-lo na viagem. Como se transporta um aquário? Por menor que seja, imaginei que ele caberia no console de latinhas do carro. Azar. Não cabia.
Só tomei uma precaução. Coloquei o Beto na pia da cozinha. Lá, pelo menos, seria mais claro e arejado do que o quarto do João.
Benzi o Beto de longe. Coloquei um grão a mais no seu jantar. A ração diária é de apenas 4 grãos de manhã e 4 à noite. Fiz um pedido rápido para São Francisco e fui embora.
Ano Novo, vida nova, São Paulo-Campos-Tietê-São Paulo. Domingo, 4 de janeiro. Nem lembrei do Beto.
Abro a porta de casa e lá está ele. Apoiado nas pedras, no fundo do aquário. Bati, sacudi, provoquei e nada. Beto estava morto! Só podia ter morrido! Quem aguentaria uma semana sem comer. Justo ele, que come bem o ano inteiro… Passou o Ano Novo na miséria.
Coloquei os 4 grãos. Beto não se mexeu. Nem sentiu o cheiro da comida. Levei o aquário pro banheiro, onde a luz é melhor, para ver se ele estava vivo ou morto. Até porque minha longa experiência diz que peixes boiam quando morrem. Mas com o Beta, tão diferente dos demais, poderia ser outra história.
Abri o aquário e comecei a cutucá-lo com o cabo do pente, bem fino. Tentava levar sua boca para o grão. Mas, apesar de um remelexo repentino que quase me matou de susto, ele estava fraco.
Cutuca daqui, cutuca dali. Rezava pra São Francisco enquanto já ficava imaginando como contaria a tragédia pro João, Beto mordiscou um grão. Jogou suas últimas forças naquele grãozinho. O barulho da mordida ecoou. Comeu o segundo, o terceiro e o quarto. Meu coração de mãe falou mais alto, dei mais dois grãozinhos para o Beto e ainda troquei um pouco da sua água suja. Ah, selvagem da lama que nada. O Beto lá de casa é uma fênix! Sobrevive a todas! Dos nossos!