20,5 kg a mais

Não se lembrava como tinha chegado até ali. A luz que refletia nos seus olhos pelo vidro do trem era de um amarelo cegante. Com a visão de quem acaba de acordar, ainda gritava na mente os 20,5 kg em vermelho que marcavam o peso da mala na balança do aeroporto. Como iria conseguir carregar aquilo agora? Dormindo acordada, mirava e não entendia o que lia nas placas no caminho que levava de Lisboa ao Porto. Sabia-se arrogante por pensar assim, mas era infinitamente mais fácil ler e compreender as indicações em inglês do que naquele português que não era o dela.

“Seu bilhete”, disse-lhe o moço.

“Sim, eu sei, preciso colocar urgentemente meus óculos escuros”, pensou.

Abriu a bolsa com aquele gesto calculado de quem está acostumada a viajar e sabe o compartimento certo para cada item. Óculos bem em cima, bilhete no bolsinho fechado com zíper, onde também ficam os cadeados das malas, passaporte e papéis da imigração na carteirinha preta de couro antiqüíssima e bem conservada da Transbrasil. Mas os 20,5 kg da mala agora estavam em seus olhos e nada fazia sentido naquela bolsinha, tão leve e tão perfeita, que gostava de carregar.

“Finalmente, aqui está você.”

“Tudo certo. Obrigado e boa viagem.”

Boa viagem, boa viagem, boa viagem.

Mas afinal o que era aquela viagem? 20,5 kg de roupas para 15 dias, tudo calculado para não haver combinações repetidas durante o dia ou a noite. Uma bota absurda para as calçadas de pedras portuguesas, um salto desconfortável para acompanhar as aulas, um tênis modernoso para salvar o dia, a noite e quem sabe até a vida, um mocassim de pêlo de coelho, um salto médio, outro salto alto, uma sandália e um chinelo. Como tudo isso pesava e como tudo isso era fundamental.

Mas afinal pra que aquela viagem? Precisava sair do Brasil, isso estava certo. Foram 40 dias ininterruptos trabalhando de madrugada. As olheiras estavam mais visíveis do que nunca, as costas arrebentadas, o cabelo, bom o cabelo havia sido cortado dias antes, e as unhas por um milagre inexplicável sobreviveram fortemente às horas dedicadas ao computador. Quinze dias em Portugal estudando história, literatura e arquitetura.

Mas afinal pra que inventar essa viagem? A explicação era tão óbvia que parecia completamente idiota, como foi completamente idiota carregar 20,5 kg numa mala com oito pares de sapato e mais palm e notebook. Sem considerar os quilômetros de fios e diferentes plugues para carregar a bateria de todo esse equipamento nas tomadas. As tomadas do mundo são incríveis. A capacidade de inventar modelos distintos só não era mais irritante que a diferença na medida dos calçados. Não poderia ser tudo em centímetros? Claro que não! Porque quando carrega-se oito pares de sapatos para freqüentar por 15 dias um curso de história, literatura e arquitetura é porque a vida está realmente complicada.

Ir para Portugal para estudar e conviver entre pessoas que entendiam a razão de ser brasileiro era a resposta publicável. O que sabia mesmo era que na verdade ali havia uma fugitiva, que na impossibilidade de voltar pro útero, decidiu voltar para o lugar de origem do seus sobrenomes.

Sabia bem como essas viagens a deixavam nacionalista. Patriotismo babaca de quem acha que o Brasil pode ser um lar. Sim, o é, mas não é. Estava tentando apagar a lembrança de uma outra viagem sensacional, que rendeu uma viagem perturbadora, que acabou provocando uma viagem ainda mais dolorida. Fugia dele para viver com ele. Difícil. E Portugal seria o salvador dessa pátria amada chamada ela mesmo. A volta ao útero da pátria-mãe 500 anos depois. Que babaquice! Só ela mesmo para inventar essa puta desculpa filosoficamente babaca para assumir para si mesma que só queria uma desculpa para sair de casa, esquecer um amor fracassado e tentar conhecer gente nova. Simples assim, como muitas viagens que mulheres sozinhas fazem a toda hora pelo mundo todo. Ela era apenas mais uma. Mas a desculpa do curso era interessante.

Maiô. Havia esquecido completamente. Também, com o frio julino que fazia em São Paulo, era impossível lembrar que era verão em Portugal. Olhou bem as raparigas nas represas e teve certeza que ninguém encarava aquela água. Não haveria tempo nem clima para isso no Porto. Bobagem. Quanto pesa um maiô? Maiô, não, um bíquini. Maiô é tão chique de dizer, mas tão chato de usar. Como havia conseguido chegar naqueles 20,5 kg? E ainda o iBook e todos aqueles fios. Não era possível. A rainha do viajar de mãos vazias agora estava sobrecarregada.

Viagens são assim, quando fazer a mala já complica é porque está difícil sair de casa. Muita ansiedade, muita vontade de sumir do mapa e muito medo. Sabia bem como essa lógica era perfeita nas suas andanças, quando as coisas fluem bem, elas simplesmente fluem bem. Dessa vez não. Tudo era barroco.

E essa vontade de desembarcar em Lisboa e seguir de trem até o Porto? Pra que isso agora? O valor da passagem era o mesmo caso quisesse desembarcar no Porto. Mas descer em Lisboa e pegar um trem dava um ar de independência tão bom. Na terra do viajar é preciso, era realmente preciso viajar.

Toda vez que ia a Portugal ficava incomodada ao ver as mulheres em grupos. Tão baixinhas, tão carrancudas, tão bravas e sem graça. Era fácil descobrir quem não era autóctone. As portuguesas tinham aquela cara de poucos amigos, o que era ótimo para as brasileiras. Os portugueses as adoravam. Para entrar na imigração era um custo, mas as adoravam. Até o curso tão bem regulamentado pela Universidade do Minho despertou a curiosidade do jovem de cabelos negros portugueses na chegada. O simpático, bonitinho, queria saber por que não aproveitava para viajar mais em vez de voltar logo depois do fim das aulas. “Ah, meu querido, eu ficaria até um mês a mais se você carregasse toda essa tralha pra mim e dirigisse lindamente sua Mercedes pra lá e pra cá comigo sentada confortavelmente ao lado, só desligando o ar-condicionado para abrir a janela e fumar”, teve vontade de dizer.

Sorriu amarelo e deu a resposta-padrão: “Tenho de voltar para trabalhar”. Sim, trabalhava, quase 12 horas por dia, e inventava esses cursos para fugir do trabalho e dos amores fracassados.

A estação de trem do Porto estava quase chegando. Dali era pegar um metrô e tchum no colchão. Endireitou-se na poltrona, olhou pra trás e viu os 20,5 kg embutidos naquela mala vermelho-salsicha. Tentou encaixar a alça do notebook no ombro, ensaiou levantar, mas desistiu e resolveu esperar a parada. Por alguns segundos esqueceu tudo e conseguiu apenas ficar feliz por estar ali e daquele jeito, que não era exatamente o seu.

O trem parou. Encarou a vermelhona, respirou fundo e tentou não tropeçar. Conseguiu descer com tudo aquilo sem ser arremessada. Viu que algumas pessoas empilhavam as malas em carrinhos carregados por senhores muito idosos e teve uma péssima sensação de estação Tietê. Declinou. Voltou às placas. Andou de um lado pro outro da plataforma e não encontrou escadas rolantes. Não, deveria ser piada. Não ter escada rolante na plataforma principal da estação do Porto era absurdo demais para ser verdade. Não haviam placas e todos desciam as escadas carregando seus malotes com a mesma disposição de sacoleiros na Ponte da Amizade.

Ficou olhando para a escada, que no final dava em um corredor estreito e com tapumes no chão. Novamente o torpor dos 20,5 kg gritando em vermelho no mostrador da balança fechou sua respiração. Segurou forte a alça da mala e desceu aqueles 25 degraus.

Estação portuguesa. Chegou ao térreo para descobrir que havia outra escada, igual a que tinha acabado de descer, para chegar à rua. Se apoiou no corrimão e cogitou desistir. De repente um braço musculoso e bem definido comprimido na manga de uma camiseta branca agarrou sua mala. Quando entendeu o que estava acontecendo, a vermelhona já estava no topo. Subiu correndo, agradecendo de longe, mas quando conseguiu alcançar a calçada só viu o homem correndo para atravessar a rua. Era um passageiro do banco ao lado. Anjo musculoso português salvador de brasileiras fraquinhas. Sim, havia esperança.

O sol estava lindo. As Mercedes beges todas enfileiradas. As obras na estação eram para a construção do metrô. Dinheiro alemão para fazer Portugal merecedor do Mercado Comum. Tudo era óbvio e voltava a fazer sentido. Agora era só entregar as malas a um taxista e curtir o caminho até o hotel.

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