Momento Douro

A fama do Porto está no vinho. Licoroso, para ser tomado em pequenas doses, de pouquinho em pouquinho. Os afoitos viram garrafas no meio dia, porém a bebida não é para iniciantes, ela pede controle e respeito.

Numa terra sem aventuras, castelos ou parques de diversão, o vinho do Porto é uma boa distração. O rio Douro está ali, mais pra duro que pra ouro, e a Vila Nova de Gaia segura o papel de cenário. Todas aquelas marcas conhecidas estampadas nos armazéns de telhados vermelhos que produzem a bebida.

Um calor danado e a leseira pós almoço já a estava sufocando quando entrou na cave. Perfeita a escolha, aliás. O ambiente aclimatado dava aquela vontade infantil de tirar o sapato e deitar no chão para se refrescar.

E o cheirinho do local? Nada, nada parecido com as casas de produção do Sul. Aquele vinho tinha clima de bebida destilada. Ainda sóbria foi andando embriagada pelo cansaço e pelo cheiro do local. A vista começava a falhar, o pensamento ia longe. Outro delírio a caminho.

Enquanto se arrastava, alguns tonéis sangravam finas linhas de vinho pelos suportes brancos. Tudo era escuro, frio e controlado. Um mosteiro pagão para a bebida cristã. As informações todas que havia absorvido nos últimos dias se embaralhavam. O homem de capa preta, iluminado por uma luz seca e amarela, a olhava e a convidava a sair dali.

A luz vermelha da saída não piscava. Abria e fechava os olhos, e ela permanecia lá. Um, dois, três passos retos e pronto. Fim da visita. O salão espelhado, barulhento e animado aguardava a todos daquele pequeno grupo para provar o que se produzia lá dentro.

A degustação oferecia três tipos do vinho. O primeiro que provou foi o ruby, um vermelho-sangue, que chegou chegando e mostrou que ali a brincadeira era para adultos e bravos, os fracos não tinham vez. Ela experimentou e declinou. O segundo, o tawny, era ameno, mas não tinha a personalidade do primeiro, e situações indecisas não eram para ela. Gostava das coisas inteiras, mas tinha ficado assustada com ruby. Ela provou e desistiu. O terceiro, o branco, estava na lista dos renegados automaticamente. Mas estava calor, ela estava assustada e cansada, variar e escolher algo mais tranquilo parecia uma boa idéia. Ela gostou do que viu e se perguntou: por que não? O branco era bom.

Reanimada com a qualidade do álcool, disparou a conversar com os outros do grupo. Até ali tinha se mantido distante, observadora e fugia sempre que podia. Mas aquela carioca sentada ao lado era tão simpática, falava de teatro com tamanha propriedade e doçura que ela logo se encantou e entrou na conversa. Vinhos e bons papos. Ótimo.

Enquanto todos começavam a recusar outras taças. Ela e a carioca se animavam e democraticamente dividiam o duopólio da conversa quando a jornada ao centro da Terra começou.

– Então tu conhecias meu marido, questionou a carioca.

– Acho que não, quem era seu marido?

Ela havia perdido o começo da história e decidiu entrar quando Zé Celso era o assunto.

– Ué, eu sou viúva do Vianinha, não te falei?

– Não, me desculpe, estava distraída. Você era mulher do Vianinha então?

– Era, sim. E, olha, nunca conheci alguém tão novo que soubesse tanto sobre ele.

Foi a deixa. Não conseguia continuar agindo espontaneamente quando era elogiada em público. Pelo menos tinha um bom repertório e sacou rápido uma resposta.

– Culpa do Décio Almeida Prado, né? Você sabe, ele ensinou tudo de teatro pra gente.

Olhou para todos e percebeu que tinha piorado a situação. Pelas caras, aquela gente não era a gente a quem o Décio tinha ensinado tudo.

A carioca, do alto da sua excelente percepção, aguçada ainda mais pelo vinho, concordou.

– Sim, o Décio era ótimo. Ensinou tudo pra TODO MUNDO.

Sorriram em sintonia e voltaram caminhando juntas pelo mormaço da margem do Douro.

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