Romanticamente românica

O seu calendário particular de efemérides acabava de ganhar mais uma data para fazer par com o Dia da Rosa, era o Dia do Chico. Naquela manhã de viagem programada, as músicas ficavam pulando randomicamente na sua cabeça e as novas construções formavam letras absurdas, mas que por razões ilógicas passavam a fazer todo o sentido.

O recepcionista do serviço de despertador parecia gritar: “Acorda, acorda, acorda, são 6h15”.

“Salazar não gostaria de ouvir você me tratando assim”, pensou, mas agradeceu fazendo um ruído qualquer.

Chico continuava lá na sua cabeça, brincando de DJ, quando a lembrança de que em poucos minutos estaria na estrada, protegida pelo asfalto liso e aconchegante da A4 e seus pensamentos, correu para reler seu itinerário.

Finalmente começaria a ver o que estava procurando, o barroco. O impressionante e descabido barroco português. Após tantas aulas de cultura celta, castreja e romanização, as grandiosas obras guardadas em todas aquelas edificações religiosas estavam mais perto dos seus olhos.

A primeira parada era Braga. Sentiu por ler Barcelos, mas ver que não pararia ali. Espantou o pensamento infatilóide de querer ver um galo iluminado, que cantou depois de assado para salvar um peregrino a caminho de Santiago. Riu. O que se pode fazer depois de reviver essa lenda absurda? Sua busca era lógica, racional e passava longe desses caminhos de Santiago.

Braga, suas escadas, órgãos seculares, sobe e desce, sobe e desce, e como sobe-se. “Raios! Se esticassem as ladeiras das cidades do norte de Portugal, o tamanho da região dobraria!”

Um choque ao entrar na Sé de Braga. O calor que insistia em fazer par com uma luminosidade incômoda transformarou-se num dueto de frio e escuridão. Os sentidos despertaram em menos de um segundo. Ela não conseguia enxergar, sentia muito frio, o ar parecia escasso e um cheiro de umidade impregnava o paladar. Virou-se, saiu da igreja, recuperou-se da passagem sombria por aquele portal e mergulhou novamente na nave.

Uma professora apaixonada começou a falar das belezas românicas daquela arquitetura quando uma voz rouca, masculina, passou a contar para um grupo de senhoras a história de cada um dos apóstolos que estavam em relevo no transepto.

Não precisou se esforçar para distanciar-se da professora e passar a acompanhar os causos contados por aquele guia curioso. Simão, Tadeu, Mateus, Felipe, Tiago -o maior, Mateus, João, Judas, Pedro, André, Tiago -o menor e Bartolomeu. Cada um daqueles homens carregava uma história mítica e engrandecedora. Quem se importava em verdades cientificamente comprovadas quando se tinha milênios de histórias fantasiosas ou não para conhecer pela frente?

Sentou-se paganamente num daqueles bancos de oração e ficou de olhos fechados ouvindo as histórias dos santos que mantiveram o ícone de Jesus popular. Deixou-se levar e agradeceu aos romanos por terem pensado em fazer construções tão duradouras como aquela. Sim, era o ópio do povo, mas no momento era a sua grande diversão.

A longa volta em silêncio tibetano para o hotel foi muito bem acompanhada por aqueles 12 homens e mais um Francisco, que teimava em cantar. Escorregou pela cama e, ato falho, abriu e conectou o computador. Um e-mail. Uma única mensagem. “Ouvi Chico o dia inteiro. Saudades.”

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