Xarás ou As Meninas sentaram no colo do Boca do Inferno

Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Y por soñar lo imposible
Soñé que tú me querías

Do Porto a Vigo era um pulo. Estava tudo provado ali no mapa, que estava ali estendido em cima da cama. Um pulo. Mas esse pulinho parecia difícil demais. Sentiu que a doença descera pela cabeça até os membros. Estava paralisada ao lado do mapa. Não conseguiria sair dali sozinha.

Bateram na porta. Bateram na porta? Como? Ela teria de levantar para abrir a porta? Que sacanagem! Por que alguém bate na porta de um quarto de hotel? Com que direito? Atender ao telefone já seria um esforço terrível, que dirá levantar-se dali e abrir a porta. Não! Tragam a guilhotina! Portugueses estúpidos.

“Oi! Que bom que você bateu? Tá tudo bem?”

“Tudo ótimo. Sabe aquela maluca que está na minha sala de arquitetura?. Então, ela bateu na porta de uma cantora brasileira que também está aqui no hotel e conseguiu uns ingressos para nós três hoje à noite. Vamos?”

“Ela bateu na porta da mulher na cara dura? Por que alg…”

“Ela é louca. Mas vamos, vai ser divertido. Depois podemos ir dançar na boate do namorado dela.”

“É? Mesmo? Tá bom, te ligo quando estiver pronta.”

“A gente sai em 15 minutos.”

A gente sai em 15 minutos. Odiava receber ordens, mas aquela xará ali era bem o tipo de amiga que ela estava precisando. Haviam se conhecido em Guimarães, admirando uns azulejos. Apesar de completamente diferentes, eram muito parecidas. A xará, pouca coisa mais velha, a tinha alertado sobre a razão daquele sentimento de paralisação corporal. O fundamento psicológico de tudo. A xará bravamente havia chegado até ali andando após meses de cama. Um milagre. Contou tudo à nova amiga numa noite boba, dessas que ninguém espera nada, mas que acabam se tornando cenários de grandes acontecimentos. Depois de horas conversando sobre fraquezas e tristezas, seria impossível não ficarem amigas.

Encontraram-se no hall e juntaram-se à maluca-cara-de-pau-namorada-do-dono-da-boate que já estava no táxi que as levaria ao show de outra xará. A segunda xará cantava grosso, gostava de dizer que era bissexual e fazia sucesso com uns hits românticos melosos bem grudentos. Definitivamente aquele programa não tinha nada a ver. Mas era preciso andar; e era tudo gratuito; e era tudo tão sem propósito, que se deixou levar, prometendo a si mesma que não seria o bode da noite.

E não foi. Divertiu-se muito, como há realmente muito não se divertia. O show era uma merda incalculável. Show em teatro, com pessoas sentadas, que tentam controlar as pernas e ficarem acomodadas. Ela levantou, carregou junto as outras duas e mais um bando de brasileiros que precisavam dançar. Foram para a frente do palco e dançaram. Ali eles não tinham nomes, telefones, documentos válidos ou contas no banco. Eram um bando de ninguém. Se ela soubesse antes que o remédio era simples assim…

Do show para a boate, e lá dois jogadores de tênis, que deveriam ser da equipe juvenil portuguesa, entenderam finalmente o que eram aquelas brasileiras.

[Lígia Fagundes Telles ocupa a cadeira de Gregório de Matos na ABL. Ele é o autor das duas primeiras estrofes da epígrafe; a primeira referência que aparece no Google à frase “Incêndio em mares de água disfarçado!” é um texto que escrevi para o Sinapse, da FSP, há muito tempo, numa outra entresafra. link. Caminho: poema > Google > ABL > xarás-Meninas > Google > Sinapse > Nelson > Otto > sinapses]

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Um pensamento sobre “Xarás ou As Meninas sentaram no colo do Boca do Inferno

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