A Tempestade

Acabo de descobrir que fazia mesmo muito tempo que eu não via Paulo Autran no teatro. Um pecado. A última vez que compartilhamos uma sala foi em 1994, justamente para “A Tempestade” [a última do William Shakespeare].

Até hoje está em primeiro lugar na minha lista de melhores interpretações masculinas. Dizem que, em “A Tempestade”, W.S. despede-se do teatro, faz seu testamento poético. P.A., me lembro bem, levou ao pé da letra. Carregou esse texto difícil, de longos monólogos e recheado de metalinguagens, como um fardo. Chega ao final do último ato ou ao Epílogo, já não sei exatamente, de costas para a platéia. É possível ter certeza que ele está chorando e sofrendo apesar de os gestos não demonstrarem. Ele apenas caminha em direção ao fundo do palco. Toda a interpretação está na voz, que apesar da sua posição, chega clara, límpida e ao mesmo tempo embargada com a emoção do texto. Neste momento, Próspero, personagem de P.A., desiste da vingança e se rende. Despede-se, enfim.

P.A. só volta a mostrar o rosto nos agradecimentos. E ali era nítido que ainda vestia a pele de Próspero, com os olhos rasos de água. Conforme os aplausos cresciam, ele voltou. E, como se fosse magia, consegui ver nos seus olhos aquele segundinho em que o ator sai do personagem e volta a ser quem é. De uma beleza indescritível, verdadeira. De aplaudir por horas.

Próspero: ”Somos feitos da mesma matéria dos sonhos”.

**

 

”A Tempestade” na íntegra: http://cultvox.locaweb.com.br/livros_gratis/tempest1.pdf

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PS: Nunca haverá aqui a intenção, menor que seja, de se fazer um texto crítico profissional. Houvesse tido eu a preocupação em me tornar crítica teatral teria assistido à interpretação de P.A. em Rei Lear.
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Um pensamento sobre “A Tempestade

  1. Poxa, quisera eu ter esse belo costume de ir ao teatro. Sou um fiasco nesse aspecto, como me odeio por isso.

    Mudando de assunto: Sei que você não é muito chegada nessas badalações blogueiras da vida, mas eu tomei a liberdade de te indicar para dois selos lá no Apenas Um…, ok?

    Só uma lembrancinha.

    Beijão

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