O dia em que a princesa caiu na lama

Aquele lugar havia sido construído, a bem da verdade, há muitos e muitos anos. Quando pensou no seu futuro, pensou que ali serviria de abrigo. Ali já era o futuro, mas há muitos anos já era assim. Naquela tarde quando encontrou seu futuro atolada até o joelho de terra, só agradeceu por ter chegado viva. Apesar de tudo, estava viva e atolada em frente ao local que havia escolhido no passado para ser seu abrigo no futuro. Ali também, fazia muitos anos, morava uma princesa, com sete anões. E cada vez que encontrava-se com a princesa, deitava-se aos seus pés e confidenciava alguns segredos. A princesa ora ficava boqueaberta, mas ouvia tudo com a maior sobriedade e, do alto da sua dignidade, recomendava precaução e bom senso. Naquela tarde, a princesa lhe virou a cara e disse: “Já pro banho”. Obedeceu. A princesa não falaria com ela naquele estado. Atolada por dentro e por fora na lama. Era realmente demais. Branca simplesmente disse: “Assim, não”. Ela entrou, encheu a banheira e lá dentro ficou por nada menos que três horas. Arrancou com a própria unha cada pedacinho de pele esprimida, tocada, sugada, mordida e destruída dos últimos dias. As pelezinhas mortas estavam todas marcadas com vermelho-sangue e roxo-porrada da última guerra. Elas faziam um cordão em volta do quase cadáver que boiava ali dentro. Tentou dormir ao som da fúria da princesa. “Você não pode voltar pra casa assim! Nunca mais!” Dormiu no seu leito de água até o sol baixar. Acordou recuperada e, como mágica, tudo estava branco de novo. Os anões lhe entregaram um hobbie macio e aconchegante. Seguraram sua cabeça, pentearam seu cabelo, cortaram suas unhas, curaram as feridas mais profundas e a levaram até sua cama. Ao final daquela tarde, puseram-na deitada e cantaram doces canções que a faziam apagar as imagens dos últimos dias. Os anões ficaram ali até muito tarde. Às 23h30, ela ouviu os pequenos passinhos saindo do quarto. Branca ainda estaria brava? Levantou e tentou mirá-la pelo vidro da sala. Estava de cara virada. Talvez no dia seguinte. Levou muito tempo para dormir novamente. Os anões poderiam voltar para ajudá-la, mas que nada. Ela sabia. Era com ela. Brance de Neve não queria se envergonhar novamente. Afinal havia aceitado viver ali para dar um pouco de realeza àquela plebéia. Como ela, agora, poderia aparecer ali depois de tantos dias sem dar sinal e ainda assim naquele estado. “Não, não e não. Isso não é comportamento digno de uma princesa.” Não havia caído uma única lágrima. O duelo com a princesa seria duro, na manhã seguinte. Quando eram 10h30, juntou toda sua coragem e foi até o jardim encarar aquela que se achava tão perfeita, para julgá-la daquela maneira. Branca de Neve iria ouvir poucas e boas. Saiu pela lateral direita, viu sua horta, as abobrinhas haviam nascido, o milho também, agora tinha cebolinha, cenoura, alface e hortelã naquele pedacinho de terra. As formigas tinham deixado a cerejeira. O pé de limão estava enorme. As flores, lindas. O pé de pêssego exalava. E uma primeira amora dava sinal de vida. Os lírios amarelos ganharam brotos. Começou a caminhar por trás da casa. A lavanda renasceu. O santo antônio floresceu. As margaridas, ah, as margaridas, elas estavam por toda parte. O jardineiro havia acabado a escada da lateral esquerda. O carro estava inteiro, fora do buraco e do atoleiro. Quando se aproximou do primeiro vaso de buchinho, viu Branca. Respirou fundo, como se fosse correr e partir para um salto mortal. Encarou a princesa por cima. Ela simplesmente sorriu e disse: “Nem uma flor morreu. Tudo aqui é seu e está vivo. Para sempre. Pode voltar lá e se machucar mais um pouquinho. Eu cuido da casa para você.” Ah, sim, a acácia, como deveria, está aguardando a próxima decisão de futuro da plebéia.

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