CQD

De cabeça baixa, com as mãos para trás, ficou fazendo círculos com o pé na calçada. Vez ou outra, tomava coragem, levantava o olhar e encarava a rua. Os carros, as pessoas, todos continuavam a rodar pela cidade. Ela não conseguia sair do lugar. Se pudesse descrever como estava se vendo, estaria em frente ao muro marrom da casa da avó, com um vestido quadriculado rosa com aventalzinho branco aplicado, meias 3/4 de colegial e duas tranças prendendo o cabelo. O pé direito continuava a fazer círculos. Ciclos. Uns mais longos, que demoravam para fechar, mas eram redondinhos, perfeitos. Outros eram rápidos, nervosos, irregulares e não fechavam muito bem. Quantas experiências não eram assim? Por pura ansiedade, às vezes apenas suspirava e fazia o círculo ao contrário, como se precisasse rever aquela história de traz para frente para retomá-la desde o comecinho e tentar deixar o desenho mais geométrico. Ah, a geometria… Os círculos e os ciclos eram tão desonestamente diferentes que nem se lembrava mais que os dois raios que fazem o diâmetro sempre têm a mesma medida. Era tão fácil chegar em linha reta até aquele pontinho furado pelo compasso no papel, que não podia ser difícil chegar até o outro lado, até o final do diâmetro. Mas na vida, e como sabia bem disso, era. O epicentro das suas histórias eram buracos muito mais profundos e doloridos do que aquele que marcava as páginas do caderno. Vieram as imagens, o cheiro do couro da mochila verde, o medo do professor de óculos fundos e régua na mão. Era a melhor e a pior aluna de matemática ao mesmo tempo. Que medo daqueles números, das folhas quadriculadas do caderninho preto. Afundou ainda mais o queixo no peito. Abriu sua nova bolsa de couro falso em busca do livro de resoluções que havia roubado do professor. Procurou novamente, de traz pra frente entre as folhas, o desenvolvimento daquele problema que tanto a atormentava. Mas aquele emaranhado de chaves, colchetes e parênteses não apresentava resposta concreta nenhuma. Tanto código, tanta lógica e nenhuma conclusão. Enxugou uma lágrima que não existia, mas fazia sentido estar ali e fechou a bolsa com cuidado para não amassar as memórias. Atravessou a rua, bateu no vidro do carro inteiro filmado e se deixou levar para um ciclo que teimava em não ter fim.

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4 pensamentos sobre “CQD

  1. Oi querida amiga,
    Mesmo de longe aqui em Catarina, não pude deixar de vir aki e deixar um singelo “oi”, recheado de saudade.
    Mas tem nada não, a saudade já tem data pra acabar… sabado ou no mais tardar segunda-feira próxima já estou de volta a terra da garoa.

    Bjs e saudades.
    Ri

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