Boa educação

Conhece aquela teoria que diz que algumas coisas nós vivemos três vezes no mesmo dia? Você acorda e tromba na porta do quarto. Fatalmente vai trombar ou se machucar mais duas vezes naquele dia. Ou ainda: você encaixa um ditado popular a uma situação, pela lógica da teoria vai encaixá-lo outras duas vezes em diferentes acontecimentos do dia.

Ponto.

Hoje por coincidência disse três vezes: mas a boa educação manda. Realmente acredito piamente que a boa educação me manda fazer algumas coisas que não me deixam exatamente feliz, mas tenho de fazer. É como se eu tivesse firmado um compromisso com a sociedade e me preocupo em atender a esse bem estar, deixando de lado minhas vontades (que são muitas). Não questiono os movimentos que faço por educação. Não sofro por fazê-los. Só espero reciprocidade.

Mas, rompendo a lógica, disse pela quarta vez: mas a boa educação manda! O alarme soou. Um estalo: opa, mas que rainha bateu dentro de você hoje que está julgando os atos alheios? As primeiras três experiências já haviam me mostrado como essa bendita educação me forjou e me diferenciou de pessoas muito próximas e queridas demais. Tudo isso hoje. Ao quarto ‘mas a boa educação manda’, resolvi prestar mais atenção ao que o Contardo estava dizendo na TV e listar nossas coincidências.

Contardo acaba de escrever um livro que trata sobre o reconhecimento do passado do pai, uma viagem pela Itália e mais ainda (minha) Florença de Savonarola e a arte do Renascimento. Contardo cita Harry Potter em seu livro, que tem na capa uma xícara de café e uma caixa de fósforo. Contardo acredita que devemos viver intensamente, o suficiente para acreditar que nossas vidas podem render bons romances, boas histórias. Contardo é um anarquista que fala muito em Deus. Contardo reconhece os santos e suas histórias e adora brincar de decifrar enigmas em obras de arte. Contardo não saiu da minha cabeça hoje e preciso desesperadamente conversar com alguém que tenha lido seu livro e que goste das mesmas coisas que nós dois. Com ele, ainda, não posso conversar.

Tenho pânico de pensar em ir ao psicanalista, mas poderia ter estudado essas teorias de maneira meio desbundada, como análise de literatura, de ficção. Aliás o que é ficção?

Talvez Contardo (ou eu?) dissesse que se acredito na boa educação, a pratico e admiro quem faz o mesmo, devo me cercar dessas pessoas e excluir do meu convívio íntimo os ‘mal educados’.

Mas como invejei um doutor em má educação quando ele simplesmente esnobou um agrado e depois se fartou. Como o invejei quando não soube responder com candura à pergunta que fiz com tantos dedos. Como queria ter a mesma petulância e responder NÃO sem ter de me justificar depois.

Mas quando recebo o que não dou, no caso grosseria banal, tenho vontade de pegar uma flanelinha embebida em álcool e simplesmente apagar as horas de ‘uma moça bem educada não deve fazer assim’ que ouvi.

Falar três vezes a mesma coisa tudo bem, só atende à teoria. A quarta já é um sinal dos deuses. Do pai, do céu. Sim, viverei entre os meus, os iguais. Educação é confortável, é quem ainda sou.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s