Mãos de seda

Ele era tão delicado. Tinha um jeitinho meigo de gesticular, de passar o indicador pelo nariz. Quando ele falava comigo, eu tinha vontade de cruzar os braços em cima da mesa, deitar a cabeça sobre eles, caída de lado, só para ficar ouvindo, só ouvindo, sem responder, de olhos fechados. Adorava o jeito dele falar. Mas ele era engraçado e eu sempre reagia às suas frases. Ele nem percebia. Eu prestava uma atenção danada. Poderia recontar suas histórias com a mesma riqueza de detalhes com que as ouvia. Como se elas fossem minhas. Ele nem sabe. Ele sabe bem pouco do que eu penso. Mas várias vezes ele contava a mesma história. Ele nem sabe mesmo, mas eu não ligo. Eu poderia ficar assim com os braços cruzados, com o queixo apoiado na mesa, igual eu ficava na escola durante as aulas de história, por horas. Ele era um homem das letras, das palavras, das prosas, das rimas, dos contos, das crônicas, das coisas difíceis de compreender. Mas ele achava tudo isso fácil. Daí para complicar um pouco o que era fácil, ele inventou de sair dando porrada. Se quebrou, coitado. Quatro pontos na mão… Foi mexer em terreno que não era dele, deu nisso. Entrou numas de que precisava mostrar que era valentão. Pobrezinho. Ele nem sabe, eu acho, mas ele é o protótipo do macho-alfa intelectual. Ele é tão senhor do mundo quando fica me contando suas histórias, levantando o indicador e passando-o depois na ponta do nariz. Ele não entende nada sobre ele, nada sobre os homens. E ainda agora, acho que para me irritar, deu pra dizer que é gay!

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