Às vezes não dá para escrever

Todos os dias, religiosamente ela diria, eu chegava a sua casa, empurrava a cadeira velha até o quadro negro e escrevia:
rei
rio

Assim, uma palavra embaixo da outra. Sempre feitas com giz branco.

Depois descia da cadeira e andava em direção ao banheiro, que ficava fora da casa, para lavar as mãos e ir almoçar.

A refeição italiana-mineira com alguns toques lituano e espanhol sempre trazia alguma novidade. Era comum ter arroz, feijão, abobrinha recheada, tortilla (aquela com umas fetas de batata frita), couve refogada, fogazza e um bife acebolado.  Tudo no mesmo dia! Ou então: puchero, arroz branco e salada de almeirão. Uma casa tradicional. Comíamos muito bem, com fartura. A economia ficava no quadro-negro

Para treinar a escrita e sair do
rei
rio

passava a limpo algumas dessas receitas.

Costumava prestar atenção aos detalhes, às peculiaridades, às maneiras esdrúxulas de escrever 1 colher de sopa das grandes de fermendo roial (sic). Ou cobrir a massa com pano de saco. Ou fazer uma bolinha com a massa, colocar dentro de um copo com água em cima da pia. Quando a bolinha subir, a massa estará pronta para abrir.

Não sei como, nem quem e muito menos por que, todos os dias alguém se dava ao trabalho de apagar o que escrevia. Eu queria ir adiante. Imaginar outras duas palavras pequenas como meu nome, que combinassem e não fossem grafadas com “a”.

Certamente, escrevia
rei
rio

porque achava graficamente parecidas. Poesia concreta do jardim da infância, talvez.

Era meu ofício. Todos os dias. Não tinha dúvidas. Era chegar e escrever:
rei
rio

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