Clara e Heitor

Era uma vez uma princesa, que morava às margens do lago Constance, na divisa entre a Alemanha e a Suíça, bem pertinho da Floresta Negra, onde todos os contos de fada dos Irmãos Grimm acontecem. Essa princesa era uma menina falante, animada, que gostava de nadar, brincar, competir e fazer o máximo de atividades possíveis ao ar livre.

Ela se chamava Clara, tinha a pele levemente bronzeada do sol, os cabelos muito negros e cacheados e os lábios finos e cor-de-rosa. Seus olhos grandes e brilhantes mostravam toda a alegria de viver que existia em Clara.

No topo da montanha que beirava o lago Constance, vivia o calado príncipe Heitor. Ele era um menino muito quieto, que tinha poucos amigos e passava a maior parte do seu tempo praticando esportes. Cavalgar, esquiar na neve e caçar eram suas atividades favoritas. Aliás, Heitor adorava viver entre os caçadores do reino. Eles o entendiam. Apesar de ser muito jovem, Heitor tinha feições de um adulto. Seu cabelo loiro, muito liso, sua pele extremamente branca, seus lábios vermelhos como o sangue e seus pequeninos olhos davam a ele uma aparência mais séria e concentrada do que realmente era.

Mas como em todos os contos de fada, um dia os pais de Clara e Heitor decidiram que eles tinham de se casar. Formariam o casal perfeito para a Floresta Negra. E reinariam da planície do lago ao topo da montanha.

O pai de Heitor, o rei Johann, ordenou que seu filho o acompanhasse numa viagem até o lago para conhecer a filha dos reis locais. Eles nem sabiam que Clara chamava-se Clara.

Enquanto isso, a mãe de Clara, a rainha Helena, tentava convencer a filha que ela deveria preparar-se para um evento muito importante que aconteceria em três dias.

Heitor sabia que dali duas noites chegaria ao lago, que sempre imaginou conhecer. Clara sentia que lá de cima das montanhas vinha uma onda de frio que lhe dava medo.

O grande dia chegou. Às escondidas, os pais de Heitor e Clara prepararam o jantar no qual os dois seriam apresentados e, se tudo desse certo, acertariam seu casamento.

Clara e Heitor foram apresentados. Obedientemente, aceitaram o casamento. Seus pais surpreenderam-se. Os príncipes e princesas naquela época não estavam aceitando as ordens reais com muita tranqüilidade. Havia dezenas de histórias de fugas e amores não-correspondidos. Porém Heitor e Clara resolveram aceitar. Os dois, que eram tão espertos, falaram sim. Não foi amor à primeira vista. Para Clara, aquilo era uma aventura. Para Heitor, uma caçada. Estavam felizes.

E continuaram felizes por muito tempo. Heitor passou três verões com Clara, hospedado no palácio. Ele gostava do calor. Clara nunca tinha ido até as montanhas. E, todos os anos, ela esperava ansiosa pela chegada de Heitor, com suas peles e notícias do gelo.

Finalmente, passado esse tempo de namoro, eles se casaram. E, como o reino de Heitor precisava de cuidados, eles foram morar no topo da montanha. Clara estava radiante, feliz e animada como nunca. Mas o frio, pouco a pouco, foi maltratando aquele corpinho acostumado ao sol e aos dias de calor à beira do lago.

No seu primeiro ano de casada, Clara engravidou. O reino todo se colocou aos seus pés. Eles percebiam a fragilidade da jovem rainha. No último mês de sua gestação, Clara estava fraca e o máximo que conseguia fazer era bordar ao lado da janela à procura de um raio de sol que a aquecesse.

Um belo dia, enquanto bordava um lençol para o seu bebê, Clara furou o dedo e previu seu futuro: teria uma filha, com a pele alva como a neve, com os olhos pretos como o breu e os lábios vermelhos como o sangue. Teria um pouco dela e de Heitor e seu nome seria Branca.

E assim nasceu Branca de Neve, em pleno verão gelado, e linda como sua mãe havia imaginado. Clara resistiu aos primeiros meses de vida de Branca, mas quando o inverno chegou, seu corpinho não agüentou e sucumbiu.

Heitor então, mais calado do que nunca, se desesperou. Amava Branca como nunca havia amado nada em sua vida. Suas mãos tremiam de emoção cada vez que segurava sua pequena filhinha. Heitor, no entanto, sentia saudades do calor e da força de viver de Clara, e começava a dar sinais de cansaço e tristeza. Resolveu, a conselho dos amigos caçadores, se casar novamente. Uma mulher linda, autoritária, que chegou ao reino da montanha com uma imensa carga de caldeirões e um enorme espelho.

Heitor nunca se aproximou dessa mulher. Acreditou que ela cuidaria bem de sua filhinha. E três anos após a morte de Clara, faleceu sussurrando seu nome.

[O resto da história você já deve conhecer. Eu inventei esse passado da família da Branca de Neve porque, além de ser o meu conto de fada preferido, o João vivia perguntando o que tinha acontecido com a mãe da Branca de Neve. Pronto, agora ele tem uma resposta.]

 

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2 pensamentos sobre “Clara e Heitor

  1. E não é que se encaixou super bem? Se alguém me dissesse que era uma história não-publicada esquecida dos Irmãos Grimm eu acreditaria piamente. 😉

  2. Gostei da história…
    Pena que hoje estou sentimental demais(acabei de assistir ao filme “Noites de Tormenta”) e só não chorei com o fim de Clara & Heitor porque o meu estoque de lágrimas já se esgotou.

    Abraços…

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