Whitney dies at 48

Recebi o alerta quando acordei, domingo de manhã, pelo push do New York Times. Era meio esperado, mas eu não estava esperando. Achava que ela estava melhor, se recuperando, que daria a volta por cima. Fiquei triste.

Ser mulher é mesmo uma tarefa e tanto. O mundo no qual fui criada, projetei a imagem das mulheres como deusas. Sensuais, trabalhadoras, mães e amantes. E elas eram representadas por essas heroínas da “vida real”, como a Elis, a Malu Mulher, a Maísa…

Na minha imagem, para ser uma dessas, você teria de trabalhar, ser a melhor, ser independente, ter um filho e ser separada. Era a fórmula mágica para ser uma mulher fudida de verdade. E com tudo isso ainda tinha de saber esfregar a barriga no tanque e deixar as roupas da família brancas como leite.

Com sorte, você ia ter grana para arranjar uma ótima ajudante que te ajudasse a criar seu filho. Em troca, vocês seriam amigas, confidentes. Ela meio no estilo entre-tapas-e-beijos, já que inevitavelmente teria uma situação social inferior à sua, e você meio Maria Bethânia/Chico Buarque, sofrendo com elegância, usando palavras pouco comuns na língua portuguesa e aprendendo a tomar uísque.

Os anos 70, para as mulheres, foram cruciais. Tudo estava lá para elas! O acúmulo dos anos de dona de casa e mais tudo o que futuro poderia oferecer. Nesse redemoinho da auto-afirmação, fui criada com essas mesmas expectativas e valores. Elas (meu pai também) não queriam que eu não fosse como elas tinham sido. No mínimo, teria de ser a Elis, a Malu, a Maísa… ou engenheira do ITA.

Daí que você começa a trilhar seu caminho, e quando vê a morte de uma mulher como a Whitney Houston aos 48 anos, todos os pingos encontram seus “is”.

Comparativos pessoais à parte, a Whitney veio de uma família de grandes mulheres, se destacou pelo seu trabalho, casou, separou, cantou meio entre-tapas-e-beijos, viveu tudo que podia, o futuro era só dela.

Whitney era a negra linda, inteligente, poderosa, que de quebra ainda era modelo e cantava com aquele vozerão. E só cantava música dor de cotovelo, de mulher que sofre, que chora, que é mal-amada e estoura os tímpanos da platéia para jurar que ela “always Love” aquele cara para sempre, do jeito que ele é. E, caso ela decida se separar, não é para viver feliz, mas para castigá-lo.

Esses sentimentos quase obrigatórios para as mulheres criadas nos anos 70…

Nunca está 100% bom. Você precisa mais. Mais amor, mais carinho, mais sucesso, mais filhos, mais beleza, mais de tudo. Mesmo que ter tudo ao mesmo tempo seja totalmente incompatível.

Daí que a barra pesa, bicho.

E para não morrer tão nova, precisa se lembrar todo dia que nem é tudo necessário para viver bem. Ser feliz é chavão até utópico demais. Precisa se lembrar de não misturar anti-depressivo com álcool também. E também precisa saber que aquelas lições aprendidas na cozinha da casa da avó eram tipo contos de fada.

Porque é mais fácil ser a Branca de Neve e viver com 7 anões do que se dar bem entrando numas de ser perfeita.

[Detalhe importante: não vale comparar a Whitney com Madonna. Madonna é outra coisa. Outra prova de heroísmo. A Madonna é tipo hors-concours. Não é normal.]

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