Grand battement

Hoje, ao sair do trabalho, ouvi uma música qualquer que me fez lembrar de você. Meu parceiro amigo de anos de bolero e de bagunça. Nunca dançamos juntos, grudados, mas dividimos inúmeras vezes o mesmo palco. O cigarro escondido na coxia, o cutucão durante o espetáculo, a ajuda no aquecimento e a provocação de um exagerado grand battement derrière. Atravessei com você no pensamento algumas pontes e ruas. Ainda hoje quando me pego criando coreografias na cabeça, me lembro desses raros momentos de dança livre de sapatilhas, calos e dores. O único menino naquele mundo de meninas. Corajoso, disciplinado. Um ballet delicioso guardado na memória. Pois bem, você pode imaginar o susto que tomei ao te ver atravessar na frente do meu carro instantes após esse pequeno sonho do passado. Merci, c’est tout vrai.

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Mecanismo de busca

De todos os recursos possíveis de análise de audiência, o que mais me encanta é o que mostra as palavras que fizeram as pessoas chegarem do Google até este blog.

A última marcante, e por isso esta menção agora, foi: “ansiedade e vontade de sumir do mundo”. Publicáveis é o 5º link de sugestão, com o texto 20,5 kg a mais.

A razão que leva uma pessoa a fazer esse tipo de busca eu conheço bem. Só não entendo como o Google poderia resolver… é o tipo de busca que os mecanismos robóticos não estão preparados para atender e, pelo visto, nem os criadores de sites para grupos de apoio.

Hey, você que quer sumir do mundo. Já percebeu que tem muita gente assim como você, né? Desabafa. Faça um blog. Deixe um comentário. Fica bem.

Bj

Bus stop

Querida,

Hoje está um dia daqueles que eu já vi, vivi e me lembro muito bem como foram. Uma mistura de ressaca, fome por proteína e doce e o coração na mão. Borboletas no estômago dificultam a distinção entre o que é sonolência e o que é realmente pressentimento. Você me diz que está esperando um milagre. Mas sempre estamos, não estamos? Sempre estamos tentando acalmar essas nossas benditas vontades, até aquelas que estão mais para necessidades primárias. Não sei, realmente, se são as borboletas ou o efeito persistente do álcool, mas quando falamos de milagre dá um friozinho na espinha. Eu não quero alimentar falsas sensações. Deus sabe quanta pedra você tem carregado. Mas se você quiser uma companhia nesse ponto final para esperar um milagre, conta comigo.

Bjs

Última estación: Esperanza

Deixei você no Ana Rosa. Entre flores e um pouco de quem eu sou. Vc tá no caminho que leva à Consolação. Deixei vc perto dos Achados e Perdidos. Mas, me desculpe, foi só por educação, porque eu não vou voltar pra te pegar. Não dá. Eu tentei ir com vc até o Paraíso, mas acabei nas Clínicas. Então, aproveita que vc tá aí agora no Ana Rosa e vai passear. Você pode ir pra qualquer lugar, é só escolher uma baldeação.

Obrigada pelo tempo ao meu lado, pela conversa, pelas frases, pelo apoio, pela fidelidade, pelas músicas, pelas letras, pelas crônicas, pelos sonhos, pelo sexo que não fizemos, pelo filho que não tivemos, pelos beijos que não demos, pelos abraços que não existiram, pelo amor, por ter sempre me falado não.

Vc vai ver, é legal se livrar dos vícios. Eu já parei de fumar, de usar drogas, de dirigir correndo na chuva e agora chega de vc. Eu já prometi muitas vezes isso, mas agora é um compromisso público. Eu parei. Vc me perdeu.

Hi dear,

Você sabe que eu adoooro quando a vida fica 100% clichê, né?

Ontem tava assim, desacreditada do futuro. Tudo, tipo everything, dando errado. Marginal Tietê entupida, nariz entupido, paciência entupida, capacidade de raciocinar entupida, felicidade entupida, coragem entupida, canais lacrimais entupidos, quando na rádio grita um Axl pra lá de entupido Rose: “Don’t you cry tonight/ there’s a heaven above you baby/ don’t you ever cry/ baby maybe someday…”

Paraíso above nada! O paraíso tava desmoronando, e os pedaços caindo em cima da minha cabeça. Aliás, literalmente! Um caminhão entupiu a ponte das Bandeiras e estavam caindo váriosss pedacinhos da ponte. Por sorte, ufa!, escapei.

Bem, aliás, a ponte das Bandeiras tá muito longe do Paraíso, seja o do céu ou o terrestre, aquele perto da Paulista. Aliás, tá mesmo a quilômetros dali. E, please, se forem cair pedacinhos de concreto na minha cabeça, que sejam os do Muro de Berlim, né?

Ai, cê sabe? Tenho muuuuitos pedacinhos meigos, grafitados em rosa Barbie, do Muro de Berlim no meu loft. Te mostro hora dessas. Deve tá valendo algumas verdinhas, não? Mas os meus são de verdade, ok? Alemães messsmo! Que uma amiga fofíssima recolheu sozinha do chão… Não são esses que até hoje vendem em Berlim! Aff, please, pedacinho de Muro falsificado é pior que fake leather no sofá!

Bem, honey, fica bem que eu tô down tonight. Don’t you cry você também, hein?

XXX

PS: recado fora da crônica. eu nem ia colocar vídeo aqui, mas preciso destruir o Axl Rose. O que é este clipe???? Lochas, sorry, mas o que é este som de helicóptero no meio?!?!?! No, Sugar! É de chorar.

Meu bem,

Mas que dia mais corrido o meu! Mal tive tempo de te contar por tudo que passei. Entre idas e vindas, descobri que nosso pequeno agora não desgruda mais da TV. Só quer assistir àquele programinha infantil, que tem bruxas, um simpático ratinho que toma banho e um porteiro-robô.

Depois de gastar boa parte da minha argumentação maternal para tirá-lo da frente da telinha, apanhei um táxi ali naquela esquina da Bartira com a Sumaré, sabe? E não é que o infeliz do praça não tinha ar-condicionado? Graças à insegurança do nosso bairro, consegui sobreviver até a Marginal, quando finalmente pude abrir os vidros de trás. Que seja.

De lá, viajamos tranquilamente até a montanha. Fiz apenas uma parada. Naquele posto azul, recém-reformado, que destoa dos ambientes rústicos da estradinha depois de Quiririm. Como pode? Me senti nos anos 80, quando não encontrávamos Marlboro em lugar algum no interior ou na praia. Fui obrigada a comprar um Lucky Strike, para fugir do tabaco bem passado do Camel.

Como era de se esperar, nossa casa continua linda. Arejada e confortável. A única surpresa foi uma frota de helicópteros. Será que o papa vai ficar no Grande Hotel? Não sei, se eu fosse ele me hospedaria em nossa casa. Infinitamente mais convidativa. Mas isso talvez seja pecado. Como saber?

Não tomei uma Red Ale por você, como me pediu. Só conseguia imaginar a doce espuma do Weiss descendo pela minha garganta. Essa lorota de aquecimento global está se saindo mais real do que eu imaginava. Que situação! Sentir calor na montanha em pleno meio de abril.

Nossa volta ocorreu sem grandes contratempos. Minhas novas musiquinhas nos fizeram cochilar. Muito boa essa nova bossa nova que vem lá do Centro-Oeste. Cheguei em casa moída e com apetite apenas para uma salada.

Depois do jantar, tudo que consegui fazer foi escrever este recado e imaginar que logo, logo você estará conosco. Um dia viro sua cliente e aí você vai ver. Ah, em tempo, recebi um folheto do supermercadinho popular dos Diniz. Está cheio de promoções. Aproveita e pega um vinagre, do tinto, que o nosso acabou. 

Bjbjbj