Transtorno afetivo bipolar tipo 2

Hoje, após cinco anos de encontros periódicos com minha psiquiatra, descobri que não tenho depressão, como sempre entendi ser o meu problema que me fazia ir a cada 3 meses até seu consultório.

Ao ligar para a terapeuta e me encaminhar, ela soltou o diagnóstico mágico: ela é uma paciente muito querida, com transtorno afetivo bipolar tipo 2 bem leve, e seria ótimo para ela conversar com você.

Uau! Eu sou bipolar. Sempre soube que sou, aliás vários textos aqui neste blog mostram como meus sentimentos são sempre extremos, para o bem e para o mal, da alegria à tristeza em questão de segundos. Uma montanha russa, como define bem um dos primeiros textos que li, logo após a saída do consultório, na internet.

E porque lembrei tanto das coisas que escrevi aqui, em momentos tão complexos, é que resolvi voltar ao blog. Escrever esses contos de desabafo sempre funcionaram como uma ótima auto-análise. Tenho dificuldade em prever minhas reações. E a escrita, me obriga a entendê-las. Por isso vou falar disso agora para mim mesma. E o canal vai ser esse aqui. Publicáveis.

:):

Textos bipolares:

As boas filhas a casa tornam

A três

A Guerra Fria acabou ou Big Loira, go home!

O dia em que a princesa caiu na lama

Leveza x Peso

(…) “Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.” (Por Milan Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser)

A leveza dos pesados cristais tchecos

A leveza dos pesados cristais tchecos

As boas filhas a casa tornam

É como se o mundo ficasse em slow motion. É como se um monstro saísse de dentro de nós e avançasse para o ataque. É cruel, é determinado e muito forte. Nos dá medo. Mas essa fúria alimenta algo ruim, bastante obscuro e muito depressivo, que está faminto. É uma fome de explodir. E explodimos. Todas juntas. Ana, Ana Lúcia e Analu. Cegas e mortais. Cegas e idiotas. No final, a tristeza da vitória inexistente. A realidade patética de atitude estúpida cumprida. Sem nada a comemorar.

Pêssegos e amoras

Existem duas frutas lindas e deliciosas no meu jardim. Neste feriado, elas me surpreenderam. Estão maiores e mais bonitas, mas ainda não estão boas para colher. Mesmo assim, elas estão nascendo, cada uma superando as adversidades do local e mantendo suas peculiaridades. Elas são bem diferentes. Diferentes demais. Preciso prestar atenção para cuidar direitinho de cada uma delas. Elas foram plantadas com certa distância, o que ajuda na manutenção. Mas eu adoro as duas. E não vejo a hora que elas me dêem mais frutos e fiquem ainda mais saborosas. Por enquanto, o pêssego está lá, meio gorducho, meio azedo, meio sem sabor. Lutando para sobreviver às formigas e à maneira que teve de se virar para caber no canteiro. Sua pele, que é maravilhosa, mostra sinais da dificuldade. Mas com adubo bom e cuidados constantes, tudo vai ficar melhor. Já a amora, está bem difícil de adoçar. Ela tem alguns segredos. Soube faz pouco tempo, por exemplo, que ela é misturada com framboesa. Apesar da aparência frágil, fraca, é muito forte. Ela agüentou sozinha alguns vendavais e até já ramificou outros dois galhos. O pêssego me desperta uma sensação de carinho, atenção, de colo familiar. Seus galhos grandes convidam para um cochilo sob suas folhas. A amora me inspira. Me faz acreditar que posso gerar mil gomos, me multiplicar, me transformar e sempre serei forte para começar de novo. O meu desafio agora é encontrar uma receita, a mais simples que tiver, para harmonizar o pêssego e a amora. Se você tiver uma, por favor, me envie. Será de grande ajuda.

imagem0361Amoras

Doce

Se ela soubesse desenhar talvez fosse mais fácil. É realmente complicado explicar o que se sente, o que se pode sentir e o que não se deve nem pensar em sentir. Ela ia assim. Escapando de uma pressão aqui, de uma cara feia ali, de um despropósito acolá. Era uma fuga constante. E vivida e sentida em tempo real, já que as horas de sono eram cada vez mais raras.

Mas e daí, né? Que diferença faz? Quem se importa? Quem liga pra isso? Aliás, qual é seu problema? Tô cagando pra você. Quer se fuder? Então que se foda sozinha. Que saco! Que grande saco! Vai cuidar da sua vida e não me enche. Me deixa em paz!

Daí que segurar as lágrimas era impossível depois de tamanha delicadeza.

É mentira. Ela nunca ouviu nada disso. Mas ficava imaginando que eram essas respostas mal-educadas que receberia caso decidisse abrir a boca.

Pronto. Tô muda.

Idiota. Babaca. Ridícula.

Raiva acumulada dá nisso. E nem sonha em me dizer que é TPM. Porque TPM de cu é rola e eu não quero respostas simples. Quero tudo bem complexo! Não é complexo? Não é a coisa mais complexa do mundo? Então vamos complexar ainda mais.

Não tô a fim hoje. Amanhã, tá?

Fica boazinha que amanhã eu te dou um doce.

Doce?

É. Um doce. É o que menininhas mimadas como você merecem. Um afaguinho, um docinho e ficam boazinhas. Como você é brava!

E você quer que eu fique aqui ouvindo essas merdas sem reagir?

Tá vendo. Quando eu quero ser gente boa com você, você fica falando palavrão.

Vai se fuder antes que eu me esqueça.

Ai, ai. Menina brava.

Porra, precisa me tratar assim? Eu sou um doce com você.

Por isso que eu vou te dar um doce amanhã.

Tá. Mas eu quero um monte. Uma dúzia. Um só é pouco.

Gulosa.

Sou. Eu sou assim. E sou melhor assim.

Chega. Vai embora.

Mãos de seda

Ele era tão delicado. Tinha um jeitinho meigo de gesticular, de passar o indicador pelo nariz. Quando ele falava comigo, eu tinha vontade de cruzar os braços em cima da mesa, deitar a cabeça sobre eles, caída de lado, só para ficar ouvindo, só ouvindo, sem responder, de olhos fechados. Adorava o jeito dele falar. Mas ele era engraçado e eu sempre reagia às suas frases. Ele nem percebia. Eu prestava uma atenção danada. Poderia recontar suas histórias com a mesma riqueza de detalhes com que as ouvia. Como se elas fossem minhas. Ele nem sabe. Ele sabe bem pouco do que eu penso. Mas várias vezes ele contava a mesma história. Ele nem sabe mesmo, mas eu não ligo. Eu poderia ficar assim com os braços cruzados, com o queixo apoiado na mesa, igual eu ficava na escola durante as aulas de história, por horas. Ele era um homem das letras, das palavras, das prosas, das rimas, dos contos, das crônicas, das coisas difíceis de compreender. Mas ele achava tudo isso fácil. Daí para complicar um pouco o que era fácil, ele inventou de sair dando porrada. Se quebrou, coitado. Quatro pontos na mão… Foi mexer em terreno que não era dele, deu nisso. Entrou numas de que precisava mostrar que era valentão. Pobrezinho. Ele nem sabe, eu acho, mas ele é o protótipo do macho-alfa intelectual. Ele é tão senhor do mundo quando fica me contando suas histórias, levantando o indicador e passando-o depois na ponta do nariz. Ele não entende nada sobre ele, nada sobre os homens. E ainda agora, acho que para me irritar, deu pra dizer que é gay!

Regalame esta noche

A sua banda mais querida é indie, é cool. Você ouve com orgulho todos os hits. As músicas são lindas, você vive falando delas no blog. Compartilha com todos os amigos. Usa de ringtone no celular. Um dia essa banda racha. A vocalista, que tem a voz mais doce do pop americano, cria outro grupo bacanérrimo. Você sonha que ela seja sua vizinha. Tanto faz se for a de cima, a de baixo ou a do lado. O bom mesmo seria ter a Kim Kelley Deal cantando por perto e espantando o barulho que vem do Minhocão. Mas a vida muda. Você também muda. Sua vizinha não canta como a Kim Kelley Deal. Ela tem três cockers. Mas a bandinha da moça vem ao Brasil. E você se apaixona ainda mais por The Breeders. Poxa, é essa voz que canta Gigantic, que já embalou tantas noites da sua tenra juventude. Os anos passam, quase 20 talvez. Tudo é lírico no mundo do rock. E você ganha umas musiquinhas piratas do novo álbum da moça e da sua fofa bandinha. Nem saiu ainda. Era pro final de abril, talvez dia 30. Ou talvez eles tenham ido curtir o 1º de Maio na Califórnia e esqueceram de lançar. As músicas rolam soltas pela internet. A Kim Kelley Deal realmente não liga para essas convenções de gravadoras, Napster, iPod, Senuti, Emule, lo que sea. E as musiquinhas entram no seu Shuffle vermelho. E de repente, Kim Kelley Deal começa a cantar com a língua enrolada. Você acha que ela já era. Que a droga bateu forte dessa vez. Mas você conhece bem aquele ritmo. O som não é totalmente agradável, mas conversa com a sua memória. Um bolero. “No quiero que te vayas…” Kim Kelley Deal está cantando um bolero antigo em espanhol. Tudo bem, tudo bem. Pixies flertava com o hispânico, com o castelhano, mas cantava em homenagem ao Cão Andaluz… E aquela música vai te emocionando. Você fecha os olhos e relembra todas as boates fuleiras que já pisou nessa América Latina. E roda do cenário vermelho apoiada nos braços do senador em La Habana, para o inferninho de salsa-merengue com os amigos em Cartagena, rodopia para o contra-tempo do editor de cultura do Diario de Monterrey na Ciudad del Mexico e finalmente acerta o passo com o argentino rock’n’roll em Santiago. A América Latina sabe temperar o brega do Julio Iglesias com a simpatia do Fito e do Charlie. Mas e a Kim Kelley Deal? Ela nem tem nada a ver com isso. O que aconteceu com você, querida? Foi isso, né? Eu sei. Tô ligada nesse lance. Você apaixonou feio pelo enfermeiro chicano crackeiro na clínica de reabilitação e deu nisso… Querida Kim Kelley Deal, vou ser solidária contigo. Vou de salto 15 para os teus shows em vez de vestir as Dr. Marteen. Paixão é assim, doce Kim Kelley. É brega mesmo, linda. Vai. Se a noite foi um presente, canta fia. Tira esse algodão da boca, lembra do visual branco do enfermeiro morenão e se entrega. Canta, Kim Kelley Deal. Manda ver. Eu te entendo, amiga.

REGALAME ESTA NOCHE

No quiero que te vayas, la noche esta muy fría
abrígame en tu pecho, hasta que llegue el día.

La almohada esta impaciente, de acariciar tu cara
tal vez te de un consejo, talvez no diga nada.

Mañana muy temprano, platicaras conmigo
y si estas decidida, de abandonar mi nido.

Entonces será en vano, tratar de detenerme
regálame esta noche, retrásame la muerte.

Mañana muy temprano…

*post devidamente ajustado depois de mais de três anos graças ao comentário do silviosonic.