Dúvida

Foi bem difícil começar o dia de hoje… Horas revirando a internet sem ter saído da cama. Delirando com prováveis situações, ora reagindo bem ora reagindo muito mal. Depois de mais de uma hora nesse lenga-lenga auto-destrutivo, João acordou, me chamou e me tirou desse transe. Ufa!

O dia foi angustiante. Uma vontade constante de chorar, de desacreditar na minha própria capacidade de ir em frente. Foi um dia duro mesmo, mas tenho dúvida, agora que ele está chegando ao fim, se ele foi de todo ruim. Porque talvez tenha sido o dia mais equilibrado, dentro dessas idas e vindas, e foi quando precisei me manter mais alerta com minhas reações. Não deixar deslizar muito entre o extremo positivo e o negativo.

Encarei algumas conversas que me fariam chorar. Fiz piadas ácidas, de gosto duvidoso. Estava bem armada e insegura.

Mas cheguei a algumas conclusões interessantes, que pensei até em anotar para a próxima terapia. Mas que basicamente, esse não é um texto de suspense e o objetivo é me expor, consegui vislumbrar porque mudei meu comportamento. A relevância que o fato ganhou me trouxe um sentimento que eu não tinha antes, pelo menos não tão intenso. Me fez duvidar se realmente sinto tudo com tanta intensidade ou estou exagerando porque estou com o orgulho ferido. E acabo reagindo muito mal, me fazendo de vítima, me sentindo humilhada e rejeitada. Não sei, estou em dúvida. E insegura.

PS: é isso! sempre achar que está errada quando faz algo diferente do “considerado certo pela sociedade”. Esse texto aqui é sobre isso: https://publicaveis.wordpress.com/2012/02/13/whitney-dies-at-48/

A três

Ana Lúcia diz: Analu, vc está patética.

Analu diz: Obrigada pela generosidade.

Ana diz: Ai, saco! Vou sair dessa conversa, tá?

Ana Lúcia diz: Ah, mas não vai mesmo! Me ajuda a tirar essa cara de bosta dela, por favor!

Ana diz: Tô fora. Ela sabe que precisa acabar com essa bobeira, que é ridículo esse sentimentalismo.

Analu diz: Vcs podem me respeitar um pouquinho e entender que eu tô confusa, sofrendo?

Ana Lúcia diz: NÃO!

Ana diz: Nem a pau. Porque depois passa e a gente fica com essa cara de idiota que ficou ouvindo uma retardada chorando pelos cantos sem razão.

Analu diz: Dessa vez não vai passar, eu tô sentindo. Não vai passar. É muito sério. Alguma coisa me diz isso.

Ana Lúcia diz: Que dia é hoje mesmo?

Analu diz: Não é TPM, Ana Lúcia. Não minimiza.

Ana diz: Fui.

Ana Lúcia diz: Eu não vou… até porque nem tem pra onde, mas, por favor, pára de bobagem. Pára!

Analu diz: Não paro, não paro, não paro.

Ana Lúcia diz: Desisto!

E se…

eu escrevesse, escrevesse, escrevesse. Escrevesse. Escrevesse, escrevesse, escrevesse, escrevesse… e s c r e v e s s e
e s c r e v e s s e
escrevesse assim freneticamente escrevesse feito louca ou de repente parasse e pensasse para escrever, será que se eu fizesse esse exercício por horas a fio eu conseguiria? igual a menina que coloca os sapatos vermelhos e dança, dança, dança até a exaustão. e se eu escrevesse tudo. preto no branco. sem cinzas. igual ao bonequinho que escreve, escreve, escreve até perder as pontas dos dedos? e se eu escrevesse e conseguisse assim escrevendo de qualquer jeito, sem reler, no meio do dia, com os olhos cansados, e mesmo assim conseguisse escrever para entender e finalmente depois de muito, muito escrever eu simplesmente conseguisse concluir alguma coisa? mas concluir alguma coisa consistente, que me fizesse entender tudo tudo o que eu não entendo e que no final me acalmasse. será que se eu escrever com a mesma vontade que eu tenho de pegar o carro agora e sair acelerando, talvez até na contramão, e visse o contagiros do teclado subindo e o velocímentro a ponto de explodir eu conseguiria parar? e se eu escrevesse tudo de uma vez para não deixar nada entalado e depois dia após dia só repetir: eu já escrevi tudo o que eu tinha para dizer. releia. e se eu escrevesse, escrevesse, escrevesse para nunca mais ter de fazer nada a não ser escrever esse texto sem fim, que me afastaria de tudo e me deixaria escondida e quietinha dentro dos meus pensamentos. e se ao em vez de escrever, eu mandasse todo mundo calar a boca e parar de me encher o saco? e se eles simplesmente obedecessem? ah se eles obedecessem… eu parava de escrever na hora.

Grand battement

Hoje, ao sair do trabalho, ouvi uma música qualquer que me fez lembrar de você. Meu parceiro amigo de anos de bolero e de bagunça. Nunca dançamos juntos, grudados, mas dividimos inúmeras vezes o mesmo palco. O cigarro escondido na coxia, o cutucão durante o espetáculo, a ajuda no aquecimento e a provocação de um exagerado grand battement derrière. Atravessei com você no pensamento algumas pontes e ruas. Ainda hoje quando me pego criando coreografias na cabeça, me lembro desses raros momentos de dança livre de sapatilhas, calos e dores. O único menino naquele mundo de meninas. Corajoso, disciplinado. Um ballet delicioso guardado na memória. Pois bem, você pode imaginar o susto que tomei ao te ver atravessar na frente do meu carro instantes após esse pequeno sonho do passado. Merci, c’est tout vrai.

Cara

Tava precisando quarar um tantinho. Tirar um micróbio aqui, uma bactéria acolá. O sol amarela, mas só ele mata tudo, né? Depois fica aquele cheirinho de sol, de que queimou, assou, enfim, de que quarou. Fui quarar pra não “qualhar”.

Hum?

É coalhar. Mas a gente fala “qualhar”, né? E eu tava “qualhando”. Por isso fui lá tomar um solzinho, fui quarar ali no varal alheio e já voltei.

Queimou ou “qualhou”?

Não “qualhei” nada, não. Eu ia “qualhar” senão tivesse quarado.

Tá queimadinha.

Então, tô.

Legal.

Quarei, pô.

Ah é.

Maior saudade do inverno.

Mas agora que o sol pegou?

Ah, mas já tá bom, né?

Friozão às vezes é melhor.

Usar meia de lã, casaco.

Só chove.

Pois é, só chove.

Daí a gente fica parecendo roupa mofada no armário, né?

É.

Que foi, bodeou?

Não.

Fala aí, de boa.

Nem.

Fala, meu.

Bicho, você sacou?

O quê?

Você precisa quarar, cara, é isso!

Mas quarar como?

Dar área, viajar, curtir, tirar o bolor.

Pô, preciso mesmo. Você adivinhou.

Eu não adivinhei merda nenhuma. Todo mundo tá precisando quarar.

Só é, viu. Porra, se é.

Tá vendo, porra? É isso, cara.

Porra…

Que foi?

Deixa pra lá.

Fala, seu porra.

Meu, você acha que eu sei que porra é essa de quarar, porra!

Gestão alternativa do reinado

Um líder, como um rei, jamais deve trair os interesses de seu povo. Os laços de confiança por mais distintos e inusuais que sejam são fortalecidos a partir da troca mútua de crédito e respeito aos limites.

Os líderes democráticos são escolhidos pelo povo. Os reis, não. Num exercício de delírio provável, um rei pode ser eleito democraticamente pelo povo como seu líder para reinar de maneira absolutista em um sistema de gestão alternativa.

Porém, aqui, o rei deve entender que seu poder de decisão é limitado. As atitudes instintivas, insanas e inconseqüentes que caracterizam os absolutistas não podem ser admitidas. Isso porque o poder concedido a este rei foi atribuído pelo povo em vez de ser adquirido por hereditariedade ou conquista. Este rei recebeu do povo a permissão para liderar sua vida porque foi considerado capaz e digno. Mas ao rei cabe atender aos interesses de seus súditos. Uma vez não cumprida essa parte do acordo, o povo pode determinar pela sua deposição do trono.

O povo só admite viver uma relação de submissão a um rei que atenda suas demandas e expectativas. Ao povo não importa quais sejam as vaidades, loucuras ou idiossincrasias de seu rei escolhido desde que esses detalhes não interfiram no desenvolvimento da nação.

Quando os laços de confiança são comprovadamente traídos, o povo tem por direito e obrigação substituir o rei. Neste momento, o povo sai da posição de passividade, que escolheu ter, para novamente eleger um novo líder.

A partir de então, a substituição fica totalmente a cargo do povo assim como toda a administração do reinado. O povo vai então decidir, entre alguns cenários, qual será o melhor modelo de governo: o tradicional (um líder eleito de maneira democrática e pelo voto direto), a auto-gestão (o povo não elege ninguém e segue controlando sozinho o reinado, um modelo anárquico) ou escolhe um novo rei (que terá novamente a falsa sensação de controle absoluto).

A STC

Desculpe-me por jogar assim com vc, mas faz tempo que me acostumei a pedir e receber. Infelizmente vc faz este papel. Vc me dá o que eu peço sem reclamar. Eu abuso, eu sei. Mas às vezes não parece incômodo. Sim, vc está marcado em mim. Trocamos sangue. Talvez tenha sido uma troca justa. Eu continuo todos os dias, mais de uma vez até, agradecendo ter te conhecido. Vc me derrubou, levantou e sacudiu. Sim, estou de pé, vc bem sabe, e é só por sua causa. Não, não é exagero. Sem vc eu não estaria aqui. Desculpe-me mesmo por te usar para me satisfazer, mas enquanto vc corresponder, eu vou pedir. E, claro, agradecer. Se vc precisa de mais marcas, mais sinais, por favor, me ajude. Eu não reconheço muito bem seus novos sinais. Mas vou fazê-las, quantas forem necessárias. Só me dê sua luz. E, sim, claro, obrigada por nunca mais ter me deixado bater a cabeça daquele jeito. Muito obrigada.