Cheiros de Eça

Era uma das suas sensações preferidas. Desajunar em silêncio, com os cabelos molhados, entrar num ônibus ainda com o dia nascendo e dormir enquanto viajava. A sensação era realmente confortante e especial. Acordava feliz e descansada no destino, com sorriso de orelha a orelha.

Naquele dia não foi diferente. Depois de dias estudando o romance folhetinesco, encontrar a casa do Eça (Eça foi de Queirós!) no meio de uma região lindamente reconstruída entre morros no Porto foi encantador. Assim ele a descreveu em A Cidade e as Serras: “Vales lindíssimos, carvalheiras e soutos de castanheiros seculares, quedas de água, pomares, flores, tudo há naquele bendito monte. A quinta está situada num alto, num sítio soberbo – que abrange léguas de horizonte, e sempre interessante. (..) Logo adiante da casa, o monte desce até ao Douro, logo por trás da casa, o monte sobe até aos cimos onde há uma ermida”.

O cérebro não parava. A boca nem abria. Juntava cada caco da novela dos últimos tempos e, de vez em quando, ria com o canto da boca. Pisava e olhava aquela casa como se entendesse porque o pires e a xícara estavam do lado esquerdo e não do direito na escrivaninha. O couro rachado da cadeira de couro era a prova das horas passadas pelo escritor ali.

A casa estava intacta e em plena atividade. Não havia aquele cheiro de ar parado que costumava haver em casas-museus. Já visitara alguns e não ter aquela sensação foi muito mais agradável. A casa estava tão viva que não resistiu aos odores e entrou na cozinha — percurso completamente fora do percurso. O cheiro adocicado era irresistível. Olhou em volta e não achou ninguém. Nem uma viva alma que pudesse explicar o que havia sido preparado naquele panelão em cima do fogão caipira.

Abriu. O vapor subiu. Doce de cidra. Amargo e doce. Convidativo e repugnante. Perfeito. O grupo a procurava. Antes de voltar, todos decidiram investigar a cozinha do seu Eça. Como em qualquer lugar do mundo, ali a conversa vingou. Todos se soltaram, e ela voltou a emudecer. Só queria saber de ouvir e sentir naquele dia. Estava pra isso. Nada mais.

Piadas na namoradeira em volta da janela. Corou, sentiu-se presente e convenceu todos a comprarem um exemplar do mestre. Estavam ali para isso, pois não? A grande viagem começava embalada por cheiros e sentimentos. No dia seguinte, finalmente, a Espanha.

Xarás ou As Meninas sentaram no colo do Boca do Inferno

Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!
Sonhei que o fogo gelou
Sonhei que a neve fervia
Y por soñar lo imposible
Soñé que tú me querías

Do Porto a Vigo era um pulo. Estava tudo provado ali no mapa, que estava ali estendido em cima da cama. Um pulo. Mas esse pulinho parecia difícil demais. Sentiu que a doença descera pela cabeça até os membros. Estava paralisada ao lado do mapa. Não conseguiria sair dali sozinha.

Bateram na porta. Bateram na porta? Como? Ela teria de levantar para abrir a porta? Que sacanagem! Por que alguém bate na porta de um quarto de hotel? Com que direito? Atender ao telefone já seria um esforço terrível, que dirá levantar-se dali e abrir a porta. Não! Tragam a guilhotina! Portugueses estúpidos.

“Oi! Que bom que você bateu? Tá tudo bem?”

“Tudo ótimo. Sabe aquela maluca que está na minha sala de arquitetura?. Então, ela bateu na porta de uma cantora brasileira que também está aqui no hotel e conseguiu uns ingressos para nós três hoje à noite. Vamos?”

“Ela bateu na porta da mulher na cara dura? Por que alg…”

“Ela é louca. Mas vamos, vai ser divertido. Depois podemos ir dançar na boate do namorado dela.”

“É? Mesmo? Tá bom, te ligo quando estiver pronta.”

“A gente sai em 15 minutos.”

A gente sai em 15 minutos. Odiava receber ordens, mas aquela xará ali era bem o tipo de amiga que ela estava precisando. Haviam se conhecido em Guimarães, admirando uns azulejos. Apesar de completamente diferentes, eram muito parecidas. A xará, pouca coisa mais velha, a tinha alertado sobre a razão daquele sentimento de paralisação corporal. O fundamento psicológico de tudo. A xará bravamente havia chegado até ali andando após meses de cama. Um milagre. Contou tudo à nova amiga numa noite boba, dessas que ninguém espera nada, mas que acabam se tornando cenários de grandes acontecimentos. Depois de horas conversando sobre fraquezas e tristezas, seria impossível não ficarem amigas.

Encontraram-se no hall e juntaram-se à maluca-cara-de-pau-namorada-do-dono-da-boate que já estava no táxi que as levaria ao show de outra xará. A segunda xará cantava grosso, gostava de dizer que era bissexual e fazia sucesso com uns hits românticos melosos bem grudentos. Definitivamente aquele programa não tinha nada a ver. Mas era preciso andar; e era tudo gratuito; e era tudo tão sem propósito, que se deixou levar, prometendo a si mesma que não seria o bode da noite.

E não foi. Divertiu-se muito, como há realmente muito não se divertia. O show era uma merda incalculável. Show em teatro, com pessoas sentadas, que tentam controlar as pernas e ficarem acomodadas. Ela levantou, carregou junto as outras duas e mais um bando de brasileiros que precisavam dançar. Foram para a frente do palco e dançaram. Ali eles não tinham nomes, telefones, documentos válidos ou contas no banco. Eram um bando de ninguém. Se ela soubesse antes que o remédio era simples assim…

Do show para a boate, e lá dois jogadores de tênis, que deveriam ser da equipe juvenil portuguesa, entenderam finalmente o que eram aquelas brasileiras.

[Lígia Fagundes Telles ocupa a cadeira de Gregório de Matos na ABL. Ele é o autor das duas primeiras estrofes da epígrafe; a primeira referência que aparece no Google à frase “Incêndio em mares de água disfarçado!” é um texto que escrevi para o Sinapse, da FSP, há muito tempo, numa outra entresafra. link. Caminho: poema > Google > ABL > xarás-Meninas > Google > Sinapse > Nelson > Otto > sinapses]

Sedaduas /interlúdio/

Saberia anos depois que as saudades poderiam ser ainda mais doloridas, mas até ali achava que estava no limite. Continuar caminhando estava pesado demais. Havia sido descoberta no meio da fuga. Que saudades dela. Suas duas outras personalidades estavam tão tristes com aquilo tudo, um planejamento tão bem estruturado estava indo por água abaixo. Que saudades. Ela (mas quem era ela?) morria a cada minuto. Ela pertencia a ele e não mais a ela. Como seu codinome, que era dele, em todos os sonhos, em todos os sentidos, sem ter sentido todos os sentidos. Eram sonhos, vontades e desejos reprimidos. Uma sufixo dela já havia alertado. Não há dor mais triste para um coraçãozinho que a de não ter vivido. Não viver era a antítese de tudo que ela e todas as suas personalidades acreditavam. E ela acreditava nele. E por acreditar nele, acreditava nela (nela inteira). E era bom acreditar nela. E era bom ter a certeza dele. Que saudades! Se.da.duas. Saudades. Novamente era preciso caminhar e sair daquilo. Não como fugitiva. Mas de cabeça erguida. O fim daquele ciclo estava próximo. Só não sabia se teria ele ao lado dela. Mas era louca por ele. E a loucura era motriz. Fonte renovável impulsionada pela distância e pela filha-da-puta das saudades. Se (Cê) da duas?

Romanticamente românica

O seu calendário particular de efemérides acabava de ganhar mais uma data para fazer par com o Dia da Rosa, era o Dia do Chico. Naquela manhã de viagem programada, as músicas ficavam pulando randomicamente na sua cabeça e as novas construções formavam letras absurdas, mas que por razões ilógicas passavam a fazer todo o sentido.

O recepcionista do serviço de despertador parecia gritar: “Acorda, acorda, acorda, são 6h15”.

“Salazar não gostaria de ouvir você me tratando assim”, pensou, mas agradeceu fazendo um ruído qualquer.

Chico continuava lá na sua cabeça, brincando de DJ, quando a lembrança de que em poucos minutos estaria na estrada, protegida pelo asfalto liso e aconchegante da A4 e seus pensamentos, correu para reler seu itinerário.

Finalmente começaria a ver o que estava procurando, o barroco. O impressionante e descabido barroco português. Após tantas aulas de cultura celta, castreja e romanização, as grandiosas obras guardadas em todas aquelas edificações religiosas estavam mais perto dos seus olhos.

A primeira parada era Braga. Sentiu por ler Barcelos, mas ver que não pararia ali. Espantou o pensamento infatilóide de querer ver um galo iluminado, que cantou depois de assado para salvar um peregrino a caminho de Santiago. Riu. O que se pode fazer depois de reviver essa lenda absurda? Sua busca era lógica, racional e passava longe desses caminhos de Santiago.

Braga, suas escadas, órgãos seculares, sobe e desce, sobe e desce, e como sobe-se. “Raios! Se esticassem as ladeiras das cidades do norte de Portugal, o tamanho da região dobraria!”

Um choque ao entrar na Sé de Braga. O calor que insistia em fazer par com uma luminosidade incômoda transformarou-se num dueto de frio e escuridão. Os sentidos despertaram em menos de um segundo. Ela não conseguia enxergar, sentia muito frio, o ar parecia escasso e um cheiro de umidade impregnava o paladar. Virou-se, saiu da igreja, recuperou-se da passagem sombria por aquele portal e mergulhou novamente na nave.

Uma professora apaixonada começou a falar das belezas românicas daquela arquitetura quando uma voz rouca, masculina, passou a contar para um grupo de senhoras a história de cada um dos apóstolos que estavam em relevo no transepto.

Não precisou se esforçar para distanciar-se da professora e passar a acompanhar os causos contados por aquele guia curioso. Simão, Tadeu, Mateus, Felipe, Tiago -o maior, Mateus, João, Judas, Pedro, André, Tiago -o menor e Bartolomeu. Cada um daqueles homens carregava uma história mítica e engrandecedora. Quem se importava em verdades cientificamente comprovadas quando se tinha milênios de histórias fantasiosas ou não para conhecer pela frente?

Sentou-se paganamente num daqueles bancos de oração e ficou de olhos fechados ouvindo as histórias dos santos que mantiveram o ícone de Jesus popular. Deixou-se levar e agradeceu aos romanos por terem pensado em fazer construções tão duradouras como aquela. Sim, era o ópio do povo, mas no momento era a sua grande diversão.

A longa volta em silêncio tibetano para o hotel foi muito bem acompanhada por aqueles 12 homens e mais um Francisco, que teimava em cantar. Escorregou pela cama e, ato falho, abriu e conectou o computador. Um e-mail. Uma única mensagem. “Ouvi Chico o dia inteiro. Saudades.”

Momento Douro

A fama do Porto está no vinho. Licoroso, para ser tomado em pequenas doses, de pouquinho em pouquinho. Os afoitos viram garrafas no meio dia, porém a bebida não é para iniciantes, ela pede controle e respeito.

Numa terra sem aventuras, castelos ou parques de diversão, o vinho do Porto é uma boa distração. O rio Douro está ali, mais pra duro que pra ouro, e a Vila Nova de Gaia segura o papel de cenário. Todas aquelas marcas conhecidas estampadas nos armazéns de telhados vermelhos que produzem a bebida.

Um calor danado e a leseira pós almoço já a estava sufocando quando entrou na cave. Perfeita a escolha, aliás. O ambiente aclimatado dava aquela vontade infantil de tirar o sapato e deitar no chão para se refrescar.

E o cheirinho do local? Nada, nada parecido com as casas de produção do Sul. Aquele vinho tinha clima de bebida destilada. Ainda sóbria foi andando embriagada pelo cansaço e pelo cheiro do local. A vista começava a falhar, o pensamento ia longe. Outro delírio a caminho.

Enquanto se arrastava, alguns tonéis sangravam finas linhas de vinho pelos suportes brancos. Tudo era escuro, frio e controlado. Um mosteiro pagão para a bebida cristã. As informações todas que havia absorvido nos últimos dias se embaralhavam. O homem de capa preta, iluminado por uma luz seca e amarela, a olhava e a convidava a sair dali.

A luz vermelha da saída não piscava. Abria e fechava os olhos, e ela permanecia lá. Um, dois, três passos retos e pronto. Fim da visita. O salão espelhado, barulhento e animado aguardava a todos daquele pequeno grupo para provar o que se produzia lá dentro.

A degustação oferecia três tipos do vinho. O primeiro que provou foi o ruby, um vermelho-sangue, que chegou chegando e mostrou que ali a brincadeira era para adultos e bravos, os fracos não tinham vez. Ela experimentou e declinou. O segundo, o tawny, era ameno, mas não tinha a personalidade do primeiro, e situações indecisas não eram para ela. Gostava das coisas inteiras, mas tinha ficado assustada com ruby. Ela provou e desistiu. O terceiro, o branco, estava na lista dos renegados automaticamente. Mas estava calor, ela estava assustada e cansada, variar e escolher algo mais tranquilo parecia uma boa idéia. Ela gostou do que viu e se perguntou: por que não? O branco era bom.

Reanimada com a qualidade do álcool, disparou a conversar com os outros do grupo. Até ali tinha se mantido distante, observadora e fugia sempre que podia. Mas aquela carioca sentada ao lado era tão simpática, falava de teatro com tamanha propriedade e doçura que ela logo se encantou e entrou na conversa. Vinhos e bons papos. Ótimo.

Enquanto todos começavam a recusar outras taças. Ela e a carioca se animavam e democraticamente dividiam o duopólio da conversa quando a jornada ao centro da Terra começou.

– Então tu conhecias meu marido, questionou a carioca.

– Acho que não, quem era seu marido?

Ela havia perdido o começo da história e decidiu entrar quando Zé Celso era o assunto.

– Ué, eu sou viúva do Vianinha, não te falei?

– Não, me desculpe, estava distraída. Você era mulher do Vianinha então?

– Era, sim. E, olha, nunca conheci alguém tão novo que soubesse tanto sobre ele.

Foi a deixa. Não conseguia continuar agindo espontaneamente quando era elogiada em público. Pelo menos tinha um bom repertório e sacou rápido uma resposta.

– Culpa do Décio Almeida Prado, né? Você sabe, ele ensinou tudo de teatro pra gente.

Olhou para todos e percebeu que tinha piorado a situação. Pelas caras, aquela gente não era a gente a quem o Décio tinha ensinado tudo.

A carioca, do alto da sua excelente percepção, aguçada ainda mais pelo vinho, concordou.

– Sim, o Décio era ótimo. Ensinou tudo pra TODO MUNDO.

Sorriram em sintonia e voltaram caminhando juntas pelo mormaço da margem do Douro.

Branca, pura e talvez virgem

Lembrava exatamente a explicação do tio, muitos anos antes, sobre o que era -com todo o preconceito possível embutido na definição- uma casa de português. Entre uma pisada e outra na areia escura, típica do litoral paulistano, identificava os horrores arquitetônicos apontados sem pudor pelo tio em frente ao sobrado de um de seus amigos da praia. Todo feriado, a casa parecia estar maior. E o tio, do alto da sua altura de adulto, apontava e gesticulava freneticamente diante das reformas do mesmo jeito que os guias de museus interpretam grandes obras. Ela dedicava toda a sua atenção àqueles momentos, como se estivesse diante de um grande sábio que desnudava aquela construção, por que não dizer, insólita.

Foi assim que a ampulheta girou 180% e ela se viu olhando as mesmas construções, só que agora em dezenas grudadas umas nas outras, nas ladeiras de condições favelares do Porto Alto. Aquele desastre monumental de azulejos estampados, lajes empilhadas, esprimidas e sufocantes compunham um mosaico interessante. Era horrível e belo.

Ao final da ladeira, escondeu o relógio. Perto dela conversava animadamente um grupo de jovens que carregava características similares ao pessoal que negociava a branca, pura e algumas vezes nem tão virgem cocaína colombiana nas periferias. O professor do curso de história nem percebeu as reações brasileiras. Afinal assalto não era o objetivo local. Eles não eram tão profissionais como os nossos.

Acima da ladeira, estava a belíssima Catedral do Porto, onde outra branca, pura e talvez virgem noiva chegava para se casar. A oportunidade era única. Ser penetra num casamento português era melhor que qualquer curso de história. Ali a história era viva. Separou-se do grupo, correu ladeira acima e entrou, misturada aos chapéus das convidadas, na Catedral.

O casamento pode ser uma cerimônia linda, inesquecível, e aquele não deixava nada a desejar. Os noivos eram lindos e pareciam ter ensaiado muito bem para aquele momento. Os convidados sentavam e levantavam harmoniosamente acompanhados pela pequena orquestra. Libretos encadernados em veludo azul-marinho foram deixados nos bancos para melhor acompanhamento da missa.

Ao final, durante a saída dos noivos, uma simpática mostra de devoção. A noiva deixa o lado do noivo e dirige-se ao altar para entregar seu buquê à virgem, já que a idéia agora é que em instantes ela se torne uma não-virgem oficial. Eles finalmente saem. O altar de prata mexicana, a barroca imagem de São Francisco com ouro brasileiro, a rosácea de mármore branco e granito verde e vermelho do italiano Nicolau Nasoni ficam para trás.

Cinderela lusitana deixava o sonho de noiva para encarar a dura realidade do casamento. Ao passar pela porta da Catedral, o noivo soltou seu braço, correu em direção a sua mãe, chorou emocionado e partiu para a festa com sua família, deixando a noiva para trás, sozinha, estática, imaginando o que viria depois.